Marco Aurélio Gomes Veado
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April 23, 2026
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Uma verdade cruel que todos precisamos encarar: a demência não afeta a todos de forma igual.
Embora atinja milhões de famílias em todo o mundo, a experiência de viver com demência ou cuidar de alguém com essa condição é profundamente moldada pela realidade econômica.
Ou seja, em comunidades pobres e com poucos recursos, a distância entre o que é necessário e o que está disponível pode ser devastadora.
Como se não bastasse, a privação de recursos pode aumentar o risco de demência devido à redução das oportunidades educacionais e profissionais. Melhorar essas oportunidades ao longo da vida para indivíduos em situação de vulnerabilidade deve ser uma prioridade de saúde pública na prevenção da demência.
É papel da MCI and Beyond discutir essa questão crucial com relação ao cuidado com a demência, especialmente quando os recursos são escassos, e por que essa conversa não pode mais esperar.

Em contextos urbanos e rurais de baixa renda, o cenário de saúde para pessoas com demência costuma ser radicalmente diferente daquele considerado padrão em comunidades mais ricas.
Em comunidades com poucos recursos, os serviços de saúde tendem a ser limitados.
As instituições especializadas em cuidados de memória, que apresentam falhas em muitos aspectos, tornam-se ainda mais inacessíveis. Além disso, a crise na força de trabalho agrava a situação por causa da escassez de profissionais especializados em cuidados com a demência. Esse é um problema nacional e global.
Na ausência de cuidados formais, as famílias, especialmente as mulheres, assumem todo o peso do cuidado.
Não se trata de uma escolha pura e simples, mas sim, de uma necessidade imposta pela negligência sistêmica.
Cuidadores em comunidades pobres frequentemente acumulam múltiplos empregos, não têm acesso a serviços de descanso (respite care) e lidam com sintomas comportamentais complexos da demência sem qualquer treinamento ou suporte profissional.
Pessoas com menor nível educacional têm muito mais probabilidade de ficar sem cuidados formais, enquanto indivíduos que vivem sozinhos frequentemente não contam nem com apoio informal, tornando-se especialmente vulneráveis.
A desigualdade se torna ainda mais evidente quando olhamos além das nações ricas.
Nos chamados países de baixa e média renda (LMICs), a demência apresenta desafios únicos devido à complexidade de seu diagnóstico e manejo, agravados por sistemas de saúde com poucos recursos, serviços fragmentados e proteção social insuficiente.
Na América Latina, fatores de risco potencialmente modificáveis explicam cerca de 54% dos casos de demência, sendo agravados por desigualdades sociais e econômicas.
Esse panorama significa que grande parte das pessoas com demência em regiões mais pobres, em teoria, poderia evitar a doença, se houvesse vontade política e recursos para enfrentar o problema.
Equidade no cuidado da demência não é um luxo: é uma questão de dignidade e direitos humanos.
No MCI and Beyond, acreditamos que toda pessoa que vive com demência merece um cuidado compassivo, informado e acessível, independentemente de onde mora ou de sua renda.
Enfrentar as lacunas no cuidado com a demência exige investimentos financeiros significativos para ampliar o acesso, aumentar o número de cuidadores profissionais e oferecer maior suporte aos cuidadores informais em todo o mundo.
O cuidado com a demência em comunidades pobres costuma ser invisível, improvisado nos fundos de casas superlotadas, conduzido sem diagnóstico e carregado em silêncio. Trazer essa realidade à luz é o primeiro passo para transformá-la.
Não podemos esquecer das pessoas que vivem nas ruas, que estão encarceradas e outras tantas em situações extremas que também sofrem com demência.
MCI and Beyond sempre vai estar ao lado do cuidador, das políticas públicas e dos especialistas em serviços sociais que têm o objetivo de apoiar as pessoas com demência, independentemente de seus recursos.
Afinal, o cérebro, bem como a dignidade de quem vive nele, não reconhece classe econômica.
Se você é cuidador ou não, abrace essa causa. A desigualdade no cuidado da demência importa. Faça a sua parte.
Finalizando com uma citação da ex-Primeira-Dama dos Estados Unidos: Rosalynn Carter:“Existem apenas quatro tipos de pessoas neste mundo: aquelas que já foram cuidadoras; aquelas que são cuidadoras; aquelas que serão cuidadoras; e aquelas que precisarão de cuidadores.”
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Rataj, A., & McConnell, E. (2024). Avanços na coleta de dados para cuidados centrados na pessoa com demência em ambientes de baixos recursos. Innovation in Aging. https://doi.org/10.1093/geroni/igae098.0569
Daly, T. (2025). A Hipótese da Cascata de Privação na Demência. American Health Research. https://doi.org/10.1016/j.ahr.2024.100219
Miranda, J.J. et al. (2025). Repensando os sistemas de saúde para o cuidado da demência em países de baixa e média renda. PLOS Global Public Health. https://doi.org/10.1371/journal.pgph.0005419
Ahuja, R., & Levy, C. (2021). Melhor saúde cerebral por meio da equidade: abordando as disparidades econômicas e de saúde na demência. Innovation in Aging. https://doi.org/10.1093/geroni/igab046.3567
Alzheimer's Association. (2024). Fatos e números sobre a doença de Alzheimer.
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